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Mas Johnny, e os vídeo games?

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Os meus amigos de longa data provavelmente estão se perguntando isso ao ver as postagens dos últimos meses aqui no Blog. Eu também tenho me perguntado isso pra falar a verdade, e resolvi gastar um tempinho aqui para explicar um pouco o que está acontecendo.

Como eu falei no post que começou tudo isso aqui, eu achei que os jogos de tabuleiro já estavam extintos. Eu sempre gostei bastante de jogar esses jogos na minha infância, mas conforme meus irmãos foram ficando mais velhos eu sempre ficava sozinho em casa, e jogar War, Banco Imobiliário e Cara-a-Cara sozinho é meio chato (eu me divertia horrores jogando futebol de botão comigo mesmo, contudo!)

Aí comecei a fazer amizade no bairro e, como era o momento áureo do Nintendinho e estávamos vivenciando a ascensão da Sega, só se falava em vídeo games. Acabei começando a jogar, me apaixonando e essa tem sido a minha opção número 1 para diversão sempre. Cinema? Pagar 30 reais para ver um filme de cerca de 2 horas sem poder interagir sendo que poderia pagar um pouco mais e ter horas e horas de diversão interativa? Teatro? Passear no parque e não ver nada explodindo nem salvar o mundo? naaaahhh…. vídeo game é que é legal, onde meus sentidos são desafiados e eu sinto que estou fazendo algo!

Talvez essa por si só já seja uma explicação. Depois de quase 30 anos jogando vídeo game, a coisa ficou meio no automático. Claro, os gráficos ficam mais novos. Claro os meios de controle mudam, os gêneros de jogos evoluem, mas a atividade em si é a mesma: Sento no sofá por várias horas, faço parte de uma história quase sempre mal contada e me sinto parte de muita ação. Mas tudo isso já no automático.

Quando joguei o Eldritch Horror recentemente, senti algo que eu não sentia há muito tempo. Me senti realmente desafiado. Me senti realmente pensando no que fazer. Quando eu estava lá com meus familiares e amigos olhando pra mesa pensando na próxima ação, não apareceu uma mensagem no meu campo de visão sugerindo alguma coisa. Não apareceu um brilho perto do melhor caminho que eu devia seguir. Quando fui escolher um item pro meu personagem, os atributos não mudaram automaticamente e eu não tinha uma mensagem constante me falando do meu novo atributo e me dizendo como usar a nova habilidade. Quando eu rolei os dados a soma não veio automaticamente. O movimento não estava colado numa espécie de trilhos. Deu pra entender, né?

De repente eu me vi lendo manuais de instrução no meu tempo livro, sendo que eu achava que não tinha paciência para ler mais nada em livro nenhum. De repente eu me vi ficando irritado por pagar 200 reais num arquivo digital (ou numa caixa com um Blu Ray), mas não acho absurdo pagar mais de 300 reais para comprar um jogo de tabuleiro. Afinal, no tabuleiro eu vejo aonde está índo o dinheiro. Tem o tabuleiro, as cartas, as artes neles, as miniaturas, o carinho na produção… enfim, eu sinto o dinheiro (muito dinheiro) sendo bem investido. Eu sinto retorno.

Mas principalmente, de verdade, eu acho que o ponto principal é a interação social. Essa coisa que eu achei que eu não precisava mais, pois afinal a gente pode falar com qualquer pessoa online. Todo mundo fala que jogar vídeo game é uma atitude solitária, mas eu sempre retruco falando que não, pois sempre jogo meu PlayStation com vários amigos conversando no headset mesmo. Mas a interação social na mesa é muito diferente e mais agradável do que as interações online. E de novo tem a ver com o fazer pensar. Ao jogar o Ticket to Ride com meus amigos no Android ou no Steam, a gente não tem que se preocupar com pontuação, ou com a distribuição de cartas ou nem mesmo com que carta usar. Basta clicar na carta que tem um contorno colorido dizendo que ela está disponível  e é isso. Já na mesa, para o bem e para o mal, você precisa prestar atenção e conversar entre si. É bem frustrante chegar numa hora perto do fim do jogo você perceber que esqueceu de marcar as últimas rodadas de pontuações e agora não sabe direito quem está ganhando (nunca me aconteceu, mas pode acontecer).

Conversando com alguns amigos, muitos falam de o problema estar no estilo de negócio do vídeo game e seus DLCs e expansões já planejadas antes do lançamento, dando a sensação de que você compra o jogo pela metade. Eu já até vi um designer de board game moderno falar isso. Porém pra mim isso é balela, pois nos board games a coisa funciona EXATAMENTE da mesma forma. Pega o Zombicide mesmo por exemplo, o responsável (na minha opinião) pelo recente boom dos board games no Brasil. Todo ano eles lançam um jogo novo, e junto já lançam um outro jogo em forma de expansão. Sem contar os inúmeros personagens e vilões extras que te dariam muitas outras formas de jogar. No final das contas, quando o jogo base é lançado ele custa uns 70 dólares mas já tem cerca de 500 dólares em conteúdo extra. E eu falei do Zombicide, mas isso acontece na maioria dos jogos. Não com a mesma voracidade que o Zombicide, verdade, mas quase todos os jogos já saem com algum tipo de expansão planejada, principalmente os que utilizarão o Kickstarter (na minha opinião o maior responsável pelo boom dos board games no mundo, mas isso já gera outra discussão).

Portanto, amigos, não é que eu odeio os vídeo games. Não é que eu acho que vídeo game é chato e só serve pra quem não gosta de pensar. Mas eu sinto que eu estou numa fase da minha vida em que eu estou dando mais valor para interações sociais, além de gostar de sentir que estou aprendendo algo realmente novo sempre que sento para jogar algo. Não tem nada a ver com o modelo de negócio dos vídeo games ou que eu tenha abandonado o estilo digital de viver. Ainda estou disposto a vender minha casa para comprar o óculos de realidade virtual do PlayStation assim que lançar.

Mas devo confessar que é um certo alívio saber que o board que eu comprar não estará todo bugado no lançamento (mas não está, obviamente, livre de qualquer tipo de erro).

Abraços!
Johnnymaxx

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